A Boa Mãe

um filme de Hafsia Herzi

99 min., 2021, França, DCP

sinopse

Nora trabalha como faxineira e cuida de sua pequena família em um conjunto habitacional no norte de Marselha. Ela está preocupada com seu neto Ellyes, que está preso há vários meses por roubo e aguarda seu julgamento com um misto de esperança e ansiedade. Nora faz tudo para que essa espera seja o mais indolor possível...

ficha técnica

Roteiro: Hafsia Herzi
Fotografia: Jérémie Attard
Montagem: Camille Toubkis
Som: Guilhem Domercq
Produção: Saïd Ben Saïd e Michel Merkt
Elenco: Halima Benhamed, Sabrina Benhamed, Jawed Hannachi Herzi, Mourad Tahar Boussatha
Título original: Bonne Mère

sobre o diretor

Hafsia Herzi fez sua estreia como atriz em O Segredo do Grão, de Abdellatif Kechiche, em 2007. Por esse papel, ela ganhou o prêmio Marcello Mastroianni na Mostra de Veneza, e o César de melhor revelação feminina em 2008. Em 2010, dirigiu Le Rodba, seu primeiro curta-metragem. Tu mérites un amour, seu primeiro longa, totalmente autoproduzido, foi selecionado na 58ª Semana da Crítica de Cannes, em 2019. Este é seu segundo longa.

+ info

Parte da entrevista com Hafsia Herzi:
*retirada do material de divulgação do filme

Por que você escolheu fazer da discreta Nora o tema do seu segundo longa como diretora?
É uma história que sempre quis contar. Comecei o roteiro em 2007. Essa mãe personagem corajosa me fascinou desde que eu era pequena. Fui criada sozinha pelo minha mãe, que era faxineira. Meu pai faleceu quando eu era muito jovem. eu tenho uma admiração sem limites por esta mulher que, quando acordávamos pela manhã, tinha preparado tudo para nós e já tinha saído para o trabalho. Eu queria fazer um filme sobre ela e todas as mulheres, sejam quais forem suas origens, que esquecem a si mesmas e constantemente colocam seus filhos em primeiro lugar. 

O que explica o título francês, Bonne Mère (Boa Mãe). 
Sim, e eu poderia ter colocado no plural! A boa mãe do filme também é Marselha e Notre-Dame de la Garde (Nossa Senhora da Guarda), que segura o filho nos braços e zela pela cidade, da mesma forma que Nora, a heroína, cuida de sua família.

Por que Marselha e seus quartiers nord (distritos do norte)?
Antes de fazer filmes e viajar para o meu trabalho, isso era tudo que eu sabia. eu cresci no bairro Les Églantiers, em um prédio em frente àquele onde filmamos o filme. Os quartiers nord sempre me inspiraram. Eu queria imortalizar aqueles arranha-céus, que um dia serão demolidos, mostram a atmosfera de lá, e fazem seus ruídos ressoarem. Quando estávamos filmando, instalamos microfones sobre todo o lugar, gravando à noite mesmo. O resultado foi um incrível arquivo sonoro, incluindo as galinhas, galos, gatos... Como os habitantes humanos, os animais lá são deixados por conta própria. Visualmente, eu queria capturar o simples, bonito e luz única do lugar. Entre a luminosidade e o som, o bairro também irradia um realismo suave.

O filme inteiro é banhado por essa luz?
Sim. Na edição, cortei algumas cenas simplesmente porque não estava vendo aquela beleza leve. Tornou-se uma obsessão. Sou apaixonado por filmar e iluminar os espectros da sociedade moderna que habitam os quartiers nord, onde cresci. Isto parece um dever «recontar» uma parte da população de que ninguém fala. Percebi que o bairro da minha infância estava cada vez mais degradado e negligenciado. As pessoas que vivem lá são cortadas. Nos últimos sete ou oito anos, o crime tornou-se uma ocorrência diária! Quando estávamos procurando locais, ouvimos atirando ao nosso redor. Quando eu estava crescendo, não havia tanta violência extrema.

É fácil fazer um filme lá?
Só consegui porque cresci lá. Trabalhei com uma pequena equipe, que é como eu gosto, e é impossível fazer o contrário se você quiser capturar a realidade da vida lá. Você precisa se misturar ao fundo.

Estava trabalhando com uma pequena equipe o que permitiu que você filmasse a cena quando Nora vai ao ponto de encontro do traficante?
Para essa cena, meu irmão Mohammed, que estava trabalhando comigo pela primeira vez, tinha feito a aferição do local. Ele havia encontrado um ponto no capô onde havia tráfico de drogas e até uma rede de prostituição ativa. Foi aí que decidimos para filmar nossa cena de pontuação de drogas. Montamos às três da manhã e filmamos o interiores, com uma tripulação ainda menor do que o habitual, para mantê-lo discreto. Algum amigos de infância cuidavam da segurança. Estávamos nervosos. Ao amanhecer, filmamos o exterior, e saímos assim que terminamos. Foi estressante, e estávamos com medo de acordando toda a vizinhança.

Havia outras condições especiais envolvidas nas filmagens naquele bairro?
Não usávamos walkie-talkies, então não podíamos ser confundidos com a polícia. Outro que não seja que, filmar ali foi uma experiência solidária. Vivendo em meio a muita pobreza e desemprego, as pessoas realmente se ajudam. Contratei muitos moradores, na frente da câmera e atrás dela. Havia uma verdadeira atmosfera familiar. Por exemplo, o guardião era um amigo de infância. Ele nos ajudou a subir no telhado quando precisei filmar um nascer do sol com vista panorâmica. Foi a única vez em que foi possível filmar de lá porque o resto do dia e da noite, há vigias em cada telhado, cujo trabalho é alertar se a polícia estiver chegando. Então foi bem tenso. Tínhamos que decolar assim que tivéssemos nossa chance.

filmografia

2021 - Bonne mère
2019 - Tu mérites un amour

festivais

Festival de Cannes - Un Certain Regard - 2021 (seleção oficial - Ensemble Prize)

trailer

fotos

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