Um elefante sentado quieto

um filme de Hu Bo

230 min., 2018, China, DCP

sinopse

Sob o sombrio céu de uma pequena cidade no norte da China, as vidas de diferentes protagonistas estão interligadas. Para proteger um amigo, o jovem Wei Bu empurra o valentão da escola escada abaixo e foge do local após o garoto ser hospitalizado com risco de vida. Wang Jin, um vizinho de 60 anos, vive em conflito com seu filho e nora que querem colocá-lo em um asilo fétido e decide se juntar a Wei. Além disso, Huang Ling, a melhor amiga e colega de classe de Wei Bu, está atormentada por manter um caso com o vice-diretor da escola. Desesperados, os três decidem fugir juntos, enquanto, do outro lado da cidade, o irmão mafioso do valentão ferido, as autoridades da escola e os pais promovem uma caçada implacável a Wei. No final, os três embarcam em um ônibus em direção à Manchúria, onde, segundo dizem, há um elefante de circo sentado quieto. Baseado na história favorita de Hu Bo, a qual faz parte de seu próprio romance intitulado Huge Crack.

ficha técnica

Roteiro: Hu Bo
Fotografia: Fan Chao
Montagem: Hu Bo
Som: Ren Yiming
Música: Hua Lun
Produção: Xie Lijia
Elenco: Zhang Yu, Peng Yuchang, Wang Yuwen, Liu Congxi
 

sobre o diretor

Hu Bo nasceu na China, em 1988, e graduou-se na Academia de Cinema de Pequim, em 2014, com um Bacharelado em Direção. Seu curta-metragem Distant Father (2014) ganhou o Golden Koala no Chinese Film Festival, na categoria Melhor Diretor. Night Runner (2014) foi selecionado para o Taipei Golden Horse Film Academy. Seu primeiro longa-metragem, Um elefante sentado quieto, foi selecionado, ainda em processo de produção, para o FIRST [International Film Festival Financing Forum], em 2016. No ano seguinte, Hu Bo participou do FIRST Training Camp sob a supervisão de Béla Tarr, onde finalizou o curta-metragem Man in the Well. Em 2017, escreveu dois romances, Huge Crack e Bullfrog, ambos publicados naquele mesmo ano. Hu Bo se suicidou logo após terminar Um elefante sentado quieto, em outubro de 2017, aos 29 anos.

+ info

Data de lançamento: 28 de fevereiro de 2018

Entrevista com Hu Bo*

Você se graduou como diretor na Beijing Film Academy. Sua experiência como estudante de cinema influencia sua criatividade de alguma forma? Qual o papel da escrita e do cinema na sua vida?
Mantenho o cinema e a literatura bem separados um do outro. Só consigo gerenciar um dos dois durante certo período de tempo, porque são formas de arte completamente diferentes. Na verdade, gostaria de poder separá-los ainda mais, mas não tenho cérebro suficiente para isso. Fazer um filme é muito difícil. Há muitos requisitos entediantes e, em geral, realizar um filme é impossível. Nesse caso, não há nada a fazer senão escrever. Escrever é um meio muito livre e não exige pré- requisitos. Hoje em dia as pessoas gostam de dizer que os filmes podem ser feitos em celulares, porém, isso é o mesmo que dizer que a escrita pode ser realizada apenas com números.

Algumas pessoas afirmam que seus trabalhos geram muitas emoções negativas, tais como decadência, desânimo e desespero. O que você acha dessas afirmações?
Você pode pedir a quem fez essas afirmações para refletir sobre si mesmo por apenas um segundo todos os dias, quando acordar, antes de ir para a cama, ou quando estiver no trabalho e for pegar um copo de água no bebedouro, e essa pessoa descobrirá que está observando sua própria vida através de óculos cor-de-rosa. Tudo o que ela faz é postar Twits, viver com base em rótulos ou acumular centenas de fotos no celular, enquanto espera uma chance de exibi-las para os outros. Não desaprovo esses comportamentos. Entretanto, as coisas realmente valiosas se encontram nas rachaduras do mundo, não de forma pessimista. Quando essa pessoa conseguir entender isso, ficará impressionada com as ordens da vida.

O que você considera uma vida ideal?
Hoje tenho 28 anos. Costumava desejar uma vida ideal quando era adolescente. Não penso mais assim. Simplesmente não há vida ideal. Trata-se apenas de uma escolha sobre o tipo de arrependimento com o qual nos dispomos a viver.

Você pretende transformar as histórias de Huge Crack em filmes? Você prefere escrever e dirigir sozinho ou em colaboração com outro diretor?
Separo o cinema da literatura e não pretendo adaptar meus próprios romances. Se alguém quiser fazer adaptações de Huge Crack, espero que não seja em um filme sobre juventude. Porque o livro não é sobre juventude, mas sim sobre a maioria dos estudantes universitários na China. As pessoas costumam falar sobre os colarinhos brancos, a classe baixa, os interesses pessoais e os empresários, entre outros rotulados grupos sociais, enquanto colocam a adolescência sob um termo coletivo e polido: a juventude. Tal definição está incorreta. Este maciço grupo de jovens adultos chineses, que não fazem nada além de dormir em seus quartos durante todo o dia e jogar videogames, conduzem suas vidas de forma negligente, enquanto participam de encontros inócuos, não há juventude. Suas vidas são repletas de coisas bem mais complicadas - tão complicadas quanto as do Estrangeiro de Camus. Por exemplo, esses jovens não se preocupam com questões materialistas, e os mais velhos gostam de criticar tudo. Mas os seres humanos podem viver sem se preocupar com a substância? Há anos atrás, não havia distinção de classes. Porém, os jovens de hoje passam a lidar com um peso enorme a partir do dia em que entram na faculdade. Era assim quando tínhamos idade para andar de bicicleta? Portanto, espero que os jovens de nossa época não prejudiquem suas próprias vidas, porque o vazio que os selvagens comedores de carne enfrentam na floresta ou que um soldado moribundo encara no campo de batalha, não é tão diferente do vazio que eles enfrentam atualmente.

De qual história no livro Huge Crack você mais gosta? Por quê?
An Elephant Sitting Still. É a última história que escrevi em setembro deste ano. Quando acabei, senti que alcancei determinado nível de esforço criativo. Esta história tem um grande significado para mim, pois, fez com que eu negasse a mim mesmo completamente, e assim me libertou de mim mesmo para que eu pudesse continuar escrevendo as histórias de outras pessoas.

Muitas histórias no livro Huge Crack deixam as pessoas com impressões muito realistas. Há alguma que seja parte da vida real ou de sua própria experiência?
Toda história tem uma origem real, e cada uma dessas origens segue um desenvolvimento emocional real com detalhes reais. Pode-se considerá-las como histórias reais e acho que elas, com certeza, podem muito bem ocorrer na vida real, mas aquelas que acontecem na realidade são mais poderosas do que as que eu escrevi.

*Entrevista realizada com Hu Bo durante a divulgação do lançamento do seu livro “Huge Crack”, em 28 de dezembro de 2016.
Hu Bo filmaria em 2017, Um elefante sentado quieto, uma das histórias do livro.
(Extraído do material de divulgação do filme)

filmografia

2018 | An Elephant Sitting Still 
2014 | Distant Father (curta), Fleeing by Night (curta)

festivais

Berlinale 2018 (FIPRESCI Prêmio)
BAFICI 2018
Hong Kong Film Festival (Prêmio de Público)
IndieLisboa (Universities Culturgest Award)
Sydney Film Festival

fotos