PJ Harvey: Um cão chamado dinheiro

um filme de Seamus Murphy

92 min., 2019, Irlanda/Reino Unido, DCP

sinopse

A compositora e cantora PJ Harvey e o premiado fotógrafo Seamus Murphy fizeram uma parceria. Em busca de experiências mais pessoais nos países sobre os quais ela desejava escrever, PJ acompanhou Murphy em algumas de suas viagens de trabalho pelo mundo. Foram juntos ao Afeganistão, ao Kosovo e a Washington. PJ coletou palavras e Murphy coletou imagens.

De volta a Londres, as palavras se transformaram em poemas, canções e, posteriormente, no álbum The Hope Six Demolition Project gravado, em 2016, por meio de uma arrojada experiência artística, na Somerset House. O público foi convidado a assistir, ao vivo, numa sala construída especialmente atrás de uma parede de vidro, a um processo de criação de cinco semanas, que se desenrolou tal qual uma escultura sonora. Murphy documentou a experiência com a mesma visão e mesmo acesso privativo de suas viagens. O resultado é uma jornada íntima pela inspiração, composição e gravação de um disco de PJ Harvey.

ficha técnica

Roteiro: Seamus Murphy
Fotografia: Seamus Murphy
Montagem: Sebastian Gollek
Som: Brendan Rehill
Música: Polly Jean Harvey
Produção: Isabel Davis, Katie Holly, James Wilson, Seamus Murphy
Elenco: Polly Jean Harvey
Título original: A Dog Called Money
 

sobre o diretor

Seamus Murphy é fotógrafo, cineasta e escritor premiado, cresceu na Irlanda e vive em Londres. Seu trabalho integra às coleções do Museu Getty de Los Angeles, Museu Imperial da Guerra em Londres, Universidade de Stanford e FRAC Auvergne. Recebeu sete prêmios World Press Photo por seu trabalho fotográfico no Afeganistão, Gaza, Líbano, Serra Leoa, Peru e Irlanda. Recebeu o World Understanding Award da POYi (Pictures of the Year), em 2005, por seu trabalho First Place sobre o Afeganistão e o filme Darkness Visible que ele fez baseado nesse trabalho foi indicado ao Emmy em 2011 e ganhou o Prêmio Liberty in Media. Murphy já fez filmes para o Channel 4 no Reino Unido e para a The New Yorker. Ele colaborou com PJ Harvey em projetos para o álbum Let England Shake (2011) e The Hope Six Demolition Project, pelo qual ganhou um Q Award de melhor video musical em 2016 e deu origem ao filme Um Cão Chamado Dinheiro. Murphy e Harvey trabalharam juntos também no livro The Hollow of the Hand, em 2015, com fotografia dele e poesia dela. Seu último livro The Republic, de 2016, é um retrato pessoal sobre a Irlanda.

+ info

ENTREVISTA COM SEAMUS MURPHY

Entrevista publicada por Katie Goh em https://crackmagazine.net/article/long-reads/we-didnt-have-any-rules-director-seamus-murphy-on-collaborating-with-pj-harvey-for-a-dog-called-money/

Como você e Harvey decidiram trabalhar juntos em Um cão chamado dinheiro?

Começamos nossa colaboração bem antes disso. Primeiro, fizemos Let England Shake em 2011 [Murphy fez 12 filmes curtos para o álbum]. Em 2008, ela foi a uma exposição e viu meu trabalho sobre o Afeganistão. Ela estava fazendo pesquisas para este álbum Let England Shake e entrou em contato comigo, que é o que ela costuma fazer quando gosta de algo: vai direto à fonte. Esse projeto funcionou muito bem e queríamos continuar. Assim, no projeto seguinte, decidimos trabalhar juntos desde o começo. Polly queria viajar e eu viajo bastante a trabalho, então pensei que poderíamos fazer dessa maneira.

Houve uma razão para vocês irem juntos a esses lugares específicos: Afeganistão, Kosovo e Washington (capital)?

Não, não exatamente. Eu já estava no Afeganistão, um lugar que me parecia óbvio, porque tenho com ele uma longa história. Inicialmente, estava preocupado com a presença da Polly lá, comigo: o que ela acharia? Ela seria um fardo? A presença dela iria impactar na minha ou em sua própria segurança? Acabou funcionando perfeitamente.

Em Washington fazia sentido por ser a fonte do poder Ocidental, o que determina, em grande medida, o destino do Kosovo e do Afeganistão, mas também tem seus próprios problemas. Por causa da filmagem do comício de Trump, eu já estava trabalhando na Pensilvânia por um mês e a campanha estava apenas começando. Conheci um jovem defensor do Trump que me disse que eu tinha que ir a um comício. Ele me ajudou a obter permissão de acesso, algo geralmente muito difícil. Incluí isso no filme porque vivemos no mesmo mundo e todos teremos de lidar com o que esse cara faz, especialmente em lugares como o Afeganistão.

Mas não foi realmente algo planejado ou roteirizado. É isto que encontramos quando viajamos. Pretendíamos explorar e conhecer. Estávamos cientes de que talvez não pudéssemos fazer nada [com o que encontrássemos]. Ambos dissemos um para o outro, que poderia ser um fiasco completo, e, caso não acontecesse, tudo bem. Mas aconteceu; ela conseguiu algo incrível. Encontrou coisas que eu nunca tinha notado antes.

Como foi observar Harvey criar The Hope Six Demolition Project?

Em Somerset House, eu estava no paraíso. Não sou músico e eles são músicos incríveis; pude vê-los se divertindo. Eles estavam num espaço bastante aberto, onde podiam cometer erros na frente do público. Era um espaço bem tolerante – se pelo menos os fotógrafos e cineastas pudessem se comportar desta maneira! Eles eram extremamente solidários uns com os outros.

Ao vê-los trabalhar, você se sentiu um estranho?

Basicamente, mantive minha distância. Até parei de almoçar com eles pois não queria que conversassem comigo quando os filmava. Queria ser uma mosca na parede.

Você diria que Harvey é o tema de O cão chamado dinheiro ou é uma parceira?

Boa pergunta, ainda estou tentando descobrir. Nunca houve nenhuma discussão sobre qual seria o tipo do filme. De uma coisa tínhamos certeza: não iria me sentar e entrevistá-la. Isso seria humilhante para mim e para ela. Também nunca houve nenhuma discussão sobre o fato de eu filmá-la. Filmei-a porque achei que era inusitado o fato de ela estar nesses espaços, então quis capturar isso. Mas, fazia meu trabalho, tirava fotografias para o livro, e, de vez em quando, eu a filmava. Nosso processo de edição foi longo. Realmente precisávamos disso: tínhamos bastante material das cinco semanas de filmagem com ela e algumas outras coisas. Mas, só no final da edição, decidimos usá-la para fazer a narração. A narrativa foi tirada diretamente das anotações que ela fez em Kosovo e no Afeganistão. São os primeiros rascunhos sobre sua estadia lá, ou seja, sobre suas observações e experiências. Reunimos tudo e percebemos que, fora de contexto, tínhamos essa narrativa flutuante. Ela está conectada, mas, ao mesmo tempo, não está.

Durante a montagem do filme, você era influenciado à música do The Hope Six Demolition Project?

Há alguns poucos exemplos, como uma imagem de uma pessoa dançando que achei que se encaixaria em alguma canção. Mas, no geral, juntei tudo como se fosse algo meu. Tentamos manter as canções relacionadas a seus lugares, ou seja, uma canção sobre o Afeganistão com imagens do Afeganistão. Fora isso, não tínhamos regras.

O que esta parceria com Harvey te proporcionou?

Ao trabalhar com ela, vi aqueles lugares de modo diferente. Ela me proporcionou um novo ângulo. Sabia que, com ela, ouviríamos uma versão muito diferente daqueles lugares que foram transformados em clichês pela mídia convencional. E que seria um processo muito complicado, mas, apenas no final, quando reunimos tudo, percebemos que tínhamos todas aquelas vozes, ideias e imagens, e que se tratava de algo ainda maior.

filmografia

2019 A Dog Called Money
2016 The Hope Six Demolition Project (curta)
2014 Sons of Stonecutter Street (curta)
2014 Bagram (curta)
2013 Home is Another Place (curta)
2012 Snake (curta)
2012 Went the Games Well? (curta)
2011 A Darkness Visible: Afghanistan (curta)
2011 12 Short Films for PJ Harvey's Let England Shake (curta)

festivais

Berlin International Film Festival 2019 (Panorama)
Seattle International Film Festival 2019
Visions du Réel 201
Sydney Film Festival 2019
Karlovy Vary International Film Festival 2019

fotos